GUARDA FÚNEBRE
   
 
Não há registro do tempo. Sabe-se que ocorreu. Foi após a mudança da sede do 6º BPM, de Belo Horizonte para Governador Valadares, quando um vagão do trem de ferro que fazia o transporte incendiou-se e passou-se a concluir as sindicâncias e inquéritos, sobre documentos desaparecidos do Batalhão, com o carimbo “estava no vagão do trem que incendiou”. O personagem principal deste causo, um sargento bigodudo e baixinho, cujo nome será omitido de propósito, até que não era um dos mais alterados, não – era o mais alterado mesmo.

O fato se deu numa pequena e pacata cidadezinha do norte de Minas, que deu uma hora para a outra se viu envolvida numa guerra entre duas famílias de fazendeiros. O cabo Comandante do destacamento, impossibilitado de manter a ordem pública com o seu reduzido efetivo, pediu reforço, sendo atendido com alguns saldados e um Sargento, o qual assumiu o comando da fração. Dias depois, o pobre e infeliz Sargento foi assassinado por uma bala perdida e, como era filho daquela terra, seus familiares resolveram sepulta-lo ali mesmo.
     Para as honras militares, foi enviado um grupo PM, comandado pelo Sargento baixinho e bigodudo.
Naquela época, como soe ainda hoje em muitos lugares do interior de Minas Gerais, velório significava uma pinguinha correndo solta, regando as estórias contadas no decorrer da noite e afugentando um pouco a tristeza deixada pela ausência do falecido. O Sargento bigodudo e demais PM da Guarda fúnebre, que já apreciavam em qualquer ocasião aquela bebida extraída da garapa em estado gasoso, não apenas afugentaram um pouco a tristeza, como também afogaram todas as mágoas.
     Para chegarem à pensão, onde pretendiam repousar um pouco, necessário foi que se fizesse uma corrente humana, no sentido literal, em linha, afim de que o bombear de um fosse equilibrado pelo o do outro. A corrente só não permitia o bambear de muitos simultaneamente, senão iriam todos ao solo, como muro de placas pré-fabricado em tempestade de vento.
Na manhã seguinte ao velório, nada de anormal aconteceu. Acordaram todos atrasados, como era de se esperar, aos berros do Sargento baixinho e bigodudo, tentando se lembrar onde haviam colocado os fuzis e munição de festim e, após muita confusão, partiram em acelerado para a necrópole, onde deveriam prestar as últimas honras militares ao Sargento falecido.
     Chegando ao cemitério, mal conseguiam se posicionar despontou o cortejo fúnebre. O Sargento baixinho, incontinente, comandou:
     - Atenção Guarda fúnebre!...Carregar!...Apontar!...Fogo!
Para surpresa de todos, os estampidos das primeiras salvas foram abafados pelo som dos gritos de desespero e correria dos que compunham aquele séqüito mortuário e, em seguida, o barulho macabro de um corpo de cadáver rolando de uma urna, arremessada ao chão pelos seus carregadores.
     O funeral não era, ainda, o do Sargento assassinado e sim o de uma anciã, que estava programado para aquele horário.