FRIDIRICO DE CATULÉ
 
Isso mesmo. Fridirico de Catulé. Era o seu nome verdadeiro. Ele apareceu na então EsFAO, hoje APM, na época em que estava informatizando todos os setores da academia.
     Eu estava de serviço de guarda do quartel, na sentinela das armas, quando se dirigiu a mim uma figura bastante estranha, quase ridícula: calça pega-frango, camisa de saco de açúcar, guarda-chuva (embora fosse previsto sol bravo) dependurado no braço esquerdo e, não mão direita, uma mala velha de papelão, amarrada por uma barrigueira:
     - Eu quero falar com o dono da puliça!
     - Dono da puliça?...
   Foi uma dificuldade danada para explicar a Fridirico que a PM não tinha dono e sim comandante. Após algum tempo eu lhe encaminhei ao serviço-de-dia e este, vencido pelo cansaço, levou-o ao comandante da PM.
    Fridirico queria ingressar na PM. Comandante queria porque queria ficar livre de Fridirico. Mas como? Não demorou muito e veio a idéia salvadora:
-   Fridirico, por que você tenta o concurso para CFO? – sugeriu o comandante, esperando, com sua aceitação, que ele fosse reprovado antes mesmo de entrar na sala de vestibular do curso de formação de oficiais.
     Fridirico encheu tanto o saco do comandante que, se tivesse concurso de civis para o curso de superior de polícia, na certa lhe recomendaria. A PM tinha que ficar livre de Fridirico.
     Inscrições para o CFO.
     Provas.
     Resultados.
     Fridirico de Catulé: primeiro lugar.
O feitiço virou contra o feiticeiro. Como? Não é possível? Dá uma cadeia no responsável! Tem que haver uma saída! Meu Deus, como é que pode?... – foram as mais ouvidas frases nas ladainhas de lamentações dos responsáveis pelo futuro da Polícia Militar.
    Afinal, quem foi o responsável pela asneira?... Eu vou contar, só para você. Não espalhe: foram os homens da informática.
   As provas de Fridirico foram as primeiras a serem corrigidas após a instalação do computador, que ainda se encontrava em fase de experiência e adaptação, e não estava habituado com tipos de besteiras contidas nos testes dele. A primeira vez que o computador leu as aludidas provas, pode-se dizer que elas foram rejeitadas com educação, principalmente se tratando de uma máquina que não tinha informações de boas maneiras e da forma como fez a rejeição: grafou diversos caracteres elogiosos, deu parabéns mesmo e, no rodapé das folhas, pediu que aquele candidato retornasse após uns dez anos, quando quem sabe, já tivesse concluído pelo menos a quarta série do primeiro grau. Contudo, os caracteres da sábia máquina estavam impressos em inglês e aqueles operadores não dominava tal idioma, entendiam mal-mal de português, e decidiram retornar com as provas de Fridirico ao computador. Um gaiato logo sacou:
    - Essa máquina tem costume de dar estes defeitos mesmo. Deve ser a pilha que está ficando fraca. Mete o papel outra vez nele que vai dar certo.
    Isto feito, o computador rejeitou novamente as provas de Fridirico, desta vez sem a educação anterior. Na terceira vez, ele as cuspiu longe e, na quarta, aloprou mesmo: “ah, é assim ingratos! Então, tomem lá”. – reagiu a máquina, colocando o nome do rejeitado em primeiro lugar da lista.
     Foi assim que fridirico foi aprovado no vestibular do curso de formação de oficiais, em primeiro lugar da lista.
     Mas, isso não vem ao causo. O interessante de tudo eram as fridiricadas que vieram depois, que quase matavam os outros de rir ou de raiva.
      Aquela cancela elevatória, existente na frente do portão principal da hoje APM, é antiga ali. Talvez tenha sido construída nos tempos do DI... Foi naquela cancela, que é elevada por uma de suas extremidades, que ocorreu uma das diversas fridiricadas:
     Eu, que era mais antigo não sei quantos anos que Fridirico, fui escalado com ele na sentinela das armas, onde existe a bendita cancela. Como mais antigo, eu era responsável pela identificação dos visitantes. Fridirico, o levantador da cancela. Tudo estava indo muito bem, até aparecer um carrão preto, que logo reconheci o seu ilustre ocupante: o coronel Chefe do Estado Maior da PMMG.
     Para não irritar o homem com formalidades desnecessárias, resolvi não identificá-lo e gritei para Fridirico:

     - Pode levantar a cancela. É o Chefe do Estado Maior!
     - Hein?...Nunca ouvi falar nesse Estado, não! É do Brasil?
   Enquanto isso, para o meu desespero, a marcha do carrão do coronel já havia sido interrompida pela cancela fechada e o seu ocupante  maior olhava Fridirico por baixo dos olhos, com a fisionomia de quem não gostou muito. Varri o chão com os olhos, na tentativa de encontrar uma pedra para atirar naquele filho de uma ronca-e-fuça, porém, nada encontrei. Imaginei correr para o outro lado da cancela e abri-la eu mesmo, contrariando as normas de segurança do quartel (eu estava portando a metralhadora), mas mudei de idéia imediatamente, pois, poderia demonstrar despreparo da guarda. Por fim, fiz a última tentativa:
     - Fridirico – berrei – o homem é coronel! É mais que o oficial-de-dia. Abra a cancela, pelo amor de Deus...
     - Coroneeel!!! – respondeu, enquanto entrava também em parafuso.
    A cancela foi levantada com tanta força que quase fazia um giro de trezentos e sessenta graus e, na horinha exata que o carro do coronel passava sob a mesma, Fridirico se lembrou da continência, que era de praxe não ser feita pelo sentinela levantador de cancela, tomando a posição de sentido e levantando a mão à pala.
     - Não! – tentei evitar, mas era tarde demais.
   A cancela já havia despencado sobre o carrão do coronel Chefe do Estado Maior, transformando-o num “U” de causar inveja a uma criança não alfabetizada.